A guerra russo-ucraniana no mundo dos seguros

No dia 24 de Fevereiro de 2022, o exército russo tomou a iniciativa de invadir totalmente o território da Ucrânia, numa operação militar oficializada e autorizada pelo governo russo.

O evento ocorre depois de anos de impasses e tensões observadas na região que datam desde o fim da União Soviética e com o início da escalada mais relevante a partir de 2014, quando ambos os países disputaram a região da Criméia.

Aqui vamos falar a respeito do mercado segurador diante desse cenário e os potenciais impactos para o mesmo, pois assim como os bancos, as companhias de seguro também fazem parte do sistema financeiro internacional.

A destruição física causada pela guerra

Os seguros patrimoniais, via de regra, possuem como exclusão de risco os danos causados por ações militares reconhecidas oficialmente como ato de guerra pelo país agredido.

A motivação é óbvia: os danos decorrentes de ações militares a instalações e edificações para uso civil são normalmente de grandes proporções, já que estas não possuem preparo algum para resistir a isso.

Exceções podem ser observadas em seguros de grandes riscos, como obras de infraestrutura (estações de energia, hidrelétricas, usinas, pontes, redes de abastecimento), classificadas como construções da engenharia pesada e mantidas por empresas estatais ou concessionárias, já que garantir a reposição de perda dessas estruturas é vital para a manutenção e sobrevivência do país, tanto pelo aspecto da operacionalidade como pela ótica da dívida pública interna.

Os prêmios elevados gerados por esses contratos, além da grande pulverização em resseguros, produzem margem compensatória que viabilizam a oferta da cobertura para o evento.

Possíveis ações de terrorismo derivadas do conflito

As guerras normalmente são geradoras de animosidades entre nacionalidades que perduram por décadas e gerações, sendo os cenários corrente e posterior a elas terreno fértil para o nascimento e recrudescimento de extremismos ideológicos, que podem se transubstanciar em ações concretas de terrorismo contra alvos civis e estruturas entendidas como símbolos de Estados nacionais.

Os danos causados por terrorismo encontram respaldo do mercado segurador, majoritariamente nos programas de seguros desenvolvidos para grandes eventos, contratados pela entidade organizadora para preservação dos interesses econômicos na realização, como na Copa do Mundo e Olimpíadas.

No entanto, o mercado deve observar atentamente essa questão e como isso pode agravar os riscos e a exposição das companhias, especialmente na Europa, tendo em vista que países do continente tiveram um aumento significativo na quantidade de atentados terroristas na última década.

A guerra cibernética em curso

Desde o início do conflito, foram registrados ataques cibernéticos coordenados a empresas e órgãos de Estado de países considerados envolvidos direta e indiretamente na conjuntura da guerra.

A guerra cibernética, já sendo uma realidade estabelecida no nosso tempo, faz com que seja urgente o aprimoramento de soluções securitárias para esse fim. Os ataques cibernéticos orquestrados por grupos de ativismo são de grande impacto, de difícil rastreamento para efeito de estudo e de propagação exponencial, causando perdas econômicas elevadas.

Ameaça nuclear

Durante o atual desenrolar da guerra, as lideranças mundiais citaram a questão da ameaça nuclear.

Tal evento não é coberto sob nenhuma hipótese pelo mercado segurador, pela evidente destruição em massa pelo uso de artefatos militares da família nuclear, o que torna difícil o estabelecimento de modelos de precificação e cláusulas que imponham limites de responsabilidade do mercado.

As sanções econômicas: como o mercado se posiciona?

Com o ocorrido, os organismos internacionais e países aprovaram duras sanções econômicas à Rússia, de forma a penalizar economicamente o país e assim aumentar os custos da guerra. Diante disso, também discute-se o impacto dessas medidas para o próprio mundo que aplicou essas sanções, haja vista que determinadas nações e continentes são dependentes da Rússia em matéria de fornecimento de determinados insumos, além da dependência energética.

Mesmo antes do estouro do conflito entre Rússia e Ucrânia, o mercado segurador já tem entendimento consolidado em relação ao tema de países sancionados.

Por ter suas bases solidificadas no ocidente europeu por razões históricas de desenvolvimento (notadamente o bloco britânico, onde o período das grandes navegações fez nascer os primeiros conceitos do seguro moderno, em oposição ao mutualismo simples praticado até então), o mercado segue as sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos e a União Européia por convenção, além de respeitar embargos criados por leis nacionais de países, desde que sejam reconhecidos como legítimos pelo Direito Internacional vigente.

Um exemplo oportuno e de fácil entendimento são os seguros para operações de logística internacional. É quase impossível segurar uma carga cujo destino seja um país sancionado ou cujo meio de transporte utilizado tenha alguma associação com este (navios de bandeira do país, por exemplo), pois caso uma companhia seguradora aceite o risco proposto, correrá o risco de ser penalizada pela sua própria jurisdição por colaborar financeiramente com um Estado nacional sancionado, tendo em vista a potencial obrigação indenizatória que um eventual sinistro geraria.

A economia russa possui uma grande participação da indústria de óleo e gás, que exige soluções de seguro por vezes complexas ou pautadas pela modalidade all-risks, onde ao invés de elencar coberturas individualizadas e de espectro limitado, tem-se um programa de seguros com apólices que compreendem todos os riscos possíveis para o objeto, excluindo-se determinadas situações específicas, aliada a uma larga pulverização de riscos por meio de contratos de resseguros para diminuir o impacto financeiro de potenciais indenizações.

Com a economia russa sancionada, esses ativos não serão seguráveis por companhias seguradoras globais, estando restritos a companhias de seguro da economia local, cujas solvências já se encontram combalidas pelo derretimento dos ativos ligados à economia russa.

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