O grande terremoto de São Francisco de 1906: sua influência no mercado segurador em relação aos terremotos

Durante a história do mercado de seguros, eventos danosos de grande magnitude marcaram a mudança de paradigmas e de entendimentos até então vigentes sobre determinados riscos.

Hoje falaremos sobre o grande terremoto de São Francisco.

O grande terremoto de São Francisco é considerado como um evento definidor para que o mercado redobrasse sua atenção quanto ao risco de tremores de terra e demais questões ligadas à parte geológica.

Ocorrido em 18 de Abril de 1906, é ainda hoje um dos maiores já registrados na história dos Estados Unidos pelos institutos governamentais (8.25 na escala Richter de magnitude), tendo causado grande destruição, um impacto na cultura nacional e deixado um legado histórico importante para estudos da comunidade de seguros.

A região ainda hoje é objeto de preocupação em relação a esse fenômeno, haja vista a proximidade de São Francisco e outras cidades da Califórnia da mais famosa falha geológica do mundo, a falha de San Andreas, resultado da movimentação das duas maiores placas tectônicas do planeta.

Impacto no mercado de seguros

Dos 235 milhões de dólares em perdas seguradas (6,3 bilhões em valores atualizados para 2018), 180 milhões foram pagos em sinistros. Isso ocorreu porque as seguradoras apresentaram problemas de solvência, o que impossibilitou o pagamento da totalidade das indenizações.

Cerca de 100 mil sinistros foram registrados e atendidos pelas seguradoras.

O evento provocou a falência de doze seguradoras americanas, além de uma austríaca e outra alemã.

O montante pago em sinistros ligados ao terremoto foi cerca de 100 vezes o montante pago pelas indenizações de incêndio daquele ano.

As perdas causadas pelo terremoto anularam os lucros do mercado de seguros dos últimos 47 anos.

O Lloyds of London, mercado de seguros britânico, desembolsou cerca de 40 milhões de libras esterlinas em indenizações (cerca de 792 milhões em valores atualizados).

Impactos econômicos derivados

Depois do terremoto, o fluxo de capitais anormal provocado pelas indenizações desestabilizou o sistema financeiro do país, com efeitos perceptíveis em outros estados e cidades.

Segurados de grande posse em São Francisco receberam suas indenizações de seguradoras inglesas por meio de barras de ouro, lastro monetário do papel moeda (economias à época eram oficialmente regidas pelo padrão ouro, de acordo com o tratado internacional vigente).

Como consequência da movimentação brusca do mercado de ouro provocada pela resposta às demandas securitárias, o Banco Central inglês aumentou as taxas de juros, para repor a perda de sua reserva de ouro em solo nacional.

Isso provocou uma segunda movimentação brusca de recursos, dessa vez do solo americano para o inglês, iniciando uma escalada nos juros em uma disputa pelo capital especulativo, criando crises de disponibilidade de empréstimos e uma “corrida aos bancos”, provocada pela perda da confiança dos depositantes nas instituições.

Dentro dos Estados Unidos, a inflação assolou determinadas indústrias pela escassez de oferta provocada pela recessão econômica e indisponibilidade de capacidade produtiva, enquanto localidades vizinhas registraram o mesmo fenômeno econômico pela migração repentina de uma população dotada de recursos graças às indenizações e interessada em repor sua condição de vida o mais rápido possível.

Durante o processo de reconstrução da cidade, viabilizado após o término da limpeza dos destroços, foi registrado crescimento econômico, inflacionamento dos salários pela demanda de força de trabalho e aumento nas demandas de materiais da indústria de construção.

Os terremotos na atual conjuntura de seguros

Hoje, com o auxílio de dados geológicos e a grande disponibilidade organizada dos mesmos por meio dos institutos de pesquisas científicas, aliada às ferramentas analíticas que a tecnologia da informação criou, o trabalho de precificação desse risco tem uma base sólida.

O princípio de pulverizar os riscos advindos da concentração geográfica, já amplamente conhecido pelo mercado em apólices contra incêndio (sendo o caso de maior experiência o famoso grande incêndio de Londres de 1666, que você pode ler a respeito aqui mesmo no blog), ganhou maior importância no processo de precificação e na análise atuarial de carteiras de seguros que envolvem coberturas contra riscos ligados à fenômenos da natureza.

No Brasil

Os terremotos não fazem parte da realidade brasileira com tanta frequência e intensidade, haja vista nossa posição geológica dentro do continente sul-americano, no centro da placa tectônica.

O Centro de Sismologia da USP mantém um monitoramento de tremores de terra no Brasil, que pode ser conferido por meio clicando aqui.

Quando ocorrem, a maioria dos tremores não são sentidos pelas pessoas, pela sua dissipação e amortecimento em uma grande área tectônica sem falhas e ininterrupta.

Dentro do nosso mercado de seguros, já existem produtos no ramo de seguros patrimoniais que contemplam a cobertura para danos causados por terremotos e outros fenômenos semelhantes classificados como tremores de terra.

Curiosamente, mesmo existindo há anos, o segurado brasileiro dificilmente enxerga utilidade na cobertura, em sua maioria levado pela falsa ideia de que o Brasil é um país totalmente imune a tremores de terra e outros desastres naturais.

No dia 31 de Janeiro de 2021, foi registrado um terremoto de magnitude 5,7 na escala Richter na fronteira do Brasil com a Guiana. O tremor foi sentido em locais como Boa Vista e Manaus, além de Georgetown, capital do país vizinho.

O evento demonstra que esse risco merece atenção, pois é passível de ocorrência na realidade brasileira, mesmo que pontualmente.

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