Pandemia e ascensão meteórica de seguros de vida. Ou: o melhor case de psicologia do consumidor dos últimos anos?

Quem nunca recusou uma oferta de seguro de vida do seu corretor de seguros ou mesmo do gerente do seu banco que atire a primeira pedra.

Você contrata e renova periodicamente seu seguro do carro, o seguro da sua empresa, da sua casa, seu seguro saúde.

Mas e o seguro de vida? Não, isso não. Você nem quer saber disso.

De repente, num curto espaço de tempo, passamos a constatar pela dura realidade que nos foi imposta que não somos tão eternos e absolutos assim diante dos perigos que nos rondam.

O resultado disso? Em Março de 2020, mês em que a situação de saúde foi classificada como pandemia pela OMS, foi registrado um aumento de 136% na comercialização de seguros de vida em comparação ao mesmo mês do ano passado.

Isso apenas no Brasil.

Em outros mercados, esse comportamento se repete até em maior grau, conforme relatam indicadores das entidades representativas do mundo dos seguros.

Mas por quê? O que explica esse aumento vertiginoso na contratação de seguros de vida, outrora negligenciado pelo consumidor?

Psicologia de mercado e consumidor

Existe um trecho muito interessante no excelente filme “A Grande Aposta” (“The Big Short“, em inglês), que narra de forma didática o crash do mercado imobiliário dos Estados Unidos que deu início à crise econômica global de 2008.

Narra, ainda, como alguns players, isolados da maioria da comunidade de investimentos e considerados antes do evento como estúpidos ou bizarros, previram e lucraram com o futuro problemático da economia mundial que todos se negavam a enxergar.

Um desses players retratados no filme, o modesto e quase amador Fundo Brownfield, administrado e gerido por Charlie Geller e Jamie Shipley e fundado em uma garagem, apresenta sua tese central para prospecção de novos investimentos, que viria a casar com a oportunidade de investir em algo com um retorno incrivelmente alto com o iminente estouro da bolha imobiliária. É ela:

“As pessoas odeiam pensar em coisas ruins acontecendo, então elas sempre subestimam sua probabilidade”. 

Creio que essa é a justificativa mais aceitável para o seguro de vida sempre ter sido negligenciado.

Pelo nosso instinto intrínseco de sobrevivência, consideramos a possibilidade de falecermos desagradável, logo queremos distância desse assunto de morrer. É natural.

Não à toa, companhias costumam reformular seu portfólio de produtos de vida frequentemente na intenção de captar a atenção do consumidor, algumas inclusive com apelos comerciais que pessoalmente classifico como deletérios e enganosos (mas esse tema fica para outro artigo).

Eis que surge uma pandemia, que choca e nos deixa consternados.

E com ela, um conjunto de mudanças comportamentais evidentes, provocadas pela questão psicológica.

O que estamos assistindo?

  • Revisão urgente de prioridades de consumo
  • Eliminação daquilo que consideramos supérfluo
  • Medo e incerteza sobre o nosso futuro
  • Reflexão sobre nosso papel enquanto vivos
  • Reflexão sobre as obrigações para quem possui a condição de provedor financeiro familiar

É o terreno perfeito para o seguro de vida abandonar o posto de mero coadjuvante para protagonista no mercado de seguros.

Ponto de inflexão histórico de sua popularidade? Só o cenário pós-pandemia irá dizer.

Seria esse o melhor case de psicologia do consumidor dos últimos anos? Creio que não seria exagero afirmar que sim.

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